Sábado, 19 de Maio de 2007
Deviamos ser todos agnósticos
O tema proposto pelo Hélder Sanches para o primeiro debate inter blogs respeita ao agnosticismo ser mais racional que o ateísmo.
O agnosticismo é um termo com várias definições, há quem se diga agnóstico por não se enquadrar em nenhuma religião mas acreditar na existência de um ser superior, e há quem se diga agnóstico por nem se interessar com a questão, e como tal sempre tive dúvidas em relação a quem deve ser considerado como agnóstico. Uma breve consulta na minha tão amada Wikipedia fez luz sobre o assunto.
O agnosticismo é a posição mais eficiente e mais racional de todas as posições em relação à crença num Deus ou Deuses. A religião ocupa a posição de menor racionalidade. A fé que um religioso sente (quer outros acreditem ou não) não é racional e uma vez que a religião sobrevive principalmente à base da fé não pode haver racionalidade em ser religioso, a minha fé não é racional nem preciso que seja, da mesma forma que acredito que os meus pais são efectivamente meus pais (e apesar de poder confirmar) nunca o quis fazer nem precisei de o fazer, da mesma forma como nunca quis provar a existência do meu Deus nem preciso de o fazer, e como tal ser capaz de o fazer, ou não, é irrelevante. Não existe racionalidade em ser crente pois o conceito de fé e racionalidade são mutuamente exclusivos.
A base do ateísmo é a não existência de um Deus ou Deuses ou entidades divinas de qualquer espécie. Os ateus, por definição, tem a crença que não existem tais figuras. A capacidade que eles tem de provar a não existência de tais seres é igual à minha capacidade de provar a existência dos mesmos seres. Por vezes chego a pensar se sou realmente religioso por ter um conceito de Deus que não se enquadra dentro de nenhuma religião ou Igreja que conheça, mas sempre que penso nisso chego à conclusão que por exclusão de partes só posso ser religioso. Eu sou crente no conceito Deus, logo não posso ser ateu nem agnóstico. Eu não atribuo maior racionalidade ao ateísmo do que atribuo à religião, os ateus estão de um lado da crença, e os religiosos do outro, as capacidades de provar seja lá o que for sobre o assunto são a meu ver iguais para os dois lados, pois a própria definição de crença é acreditar com mais que 50% de certeza em algo. Eu não acredito com 100% de certeza no meu Deus, mas acredito aí com uns 95.1% e nem estou a ver como é possível acreditar em seja lá o que for com 100% de certeza, eu nem na morte tenho esta certeza (estou a contar que até à minha morte, que espero que esteja muito distante, a ciência invente uma forma qualquer de preservar a minha consciência). Eu como religioso não vejo vantagem nenhuma em ser ateu, mas da mesma forma um ateu não vê vantagem nenhuma em ser religioso, estamos em equipas diferentes a jogar o mesmo jogo.
Os agnósticos no meio de tudo isso acabam por ser os mais racionais de todos, eles pura e simplesmente decidem que o problema da existência de Deus, Deuses ou entidades divinas é um problema que não tem solução. Esta posição é mais racional de todas, pois não confirma a existência de algo que não se consegue provar, nem desmente a existência do mesmo algo, pois quando não se prova que existe não significa que não exista, os átomos sempre existiram mas só a partir de uma determinada altura foi provada a sua existência. Esta posição, face às circunstâncias actuais, é a que maior racionalidade tem, pois o tempo e energia que os agnósticos não gastam a pensar nisso gastam-no em outras coisas. Eu não considero, nem nunca o fiz e nunca o farei, que a existência de Deus, Deuses ou entidades divinas seja um problema ou entrave para a evolução da Humanidade, para cada individuo até pode ser mas é algo que pertence à sua orla decisiva. Eu acho que devíamos ser todos agnósticos, seria muito mais eficiente.
Espero não ter sido muito provocador :)
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10 comentários:
Está óptimo, Zé.
Não foste nada provocador... Nesse aspecto ficaste aquém das minhas expectativas. ;-)
Um abraço e obrigado pela participação.
Uma boa leitura. :)
Gostaria de fazer uma nota, sobre fé/racionalidade.
«Não existe racionalidade em ser crente pois o conceito de fé e racionalidade são mutuamente exclusivos»
A Teologia existe separadamente e paralelamente à Filosofia precisamente por causa dessa incompatibilidade.
"Os agnósticos no meio de tudo isso acabam por ser os mais racionais de todos, eles pura e simplesmente decidem que o problema da existência de Deus, Deuses ou entidades divinas é um problema que não tem solução."
Claro que haveria solução. Seria possível provar que existe. Bastaria que o deus provasse isso. Provar que não existe é, de fato, impossível. Não posso provar que o Mickey não existe. Mas se eu provar que ele surgiu da mente de um cartunista, por qual razão eu devo ser agnóstico em relação ao camundongo?
E se Disney criou o Mickey, o medo da morte criou os deuses, afinal de contas eles são meros acessórios da imortalidade da alma, assunto que de fato é relevante. Existiria o conceito de imortalidade se não tivéssemos medo da morte? Obviamente não. Se morremos com nosso corpo - que é o lógico, uma vez que todas características outrora atribuídas à alma, como personalidade, consciência, memória, etc., sabemos hoje ser atributos da matéria - há menos sentido ainda em existir um deus, uma vez que ele é inútil para os que estão vivos e estes não viverão após a própria morte (vida após a morte é oxímoro). Então, pela clássica Navalha de Ockham, se o mundo é o mesmo com ou sem deus, é mais racional aceitar que ele é uma mera invenção humana, criada à nossa imagem e semelhança.
Caro Bizarro (José ao que me apercebi), devo já dizer que o seu artigo está extremamente lúcido e explícito. Não concordo com a maioria dele no entanto. Todos deviamos ser cépticos, assim o acho, ter a mente aberta para debate e não a fechar com conceitos que podem estar errados, ou mesmo certos mas a poderem ser polidos. O Agnosticismo não acarreta isso, penso mesmo que em muito dificulta. Dá liberdade a convicções sem factos e retira as irracionalidades da esfera do debate. Tais convicções erradas podem ser extremamente nefastas à Humanidade ao não passarem nos filtros do debate. Se ao me explodir e matar dezenas de pessoas tenho a certeza que vou ter relações sexuais com 72 virgens, porque não o fazer? Como em qualquer outro debate é necessário factos. Se disser que existem tamagotchis assassinos em Plutão e Fadas e Duendes a fazerem sexo em Saturno, o agnosticismo não filtra tais afirmações, e permite que eu as faça sem usar factos. A afirmação é acompanhada de factos em todos os campos, no religioso não pode ser diferente, libertinagem religiosa pode fomentar ideias lunáticas aos milhões por via do agnosticismo. Teremos de ser cepticos relativamente a tudo, posso não acreditar em algo, mas se alguém me provar o contrário acreditarei naquilo que o outro acredita, a razão deve contagiar. Os ateus não necessitam de provar nada a nínguém, insinuações mirabolantes acaretam a necessidade de factos mirabolantes. Ou existem factos a comprovarem uma afirmação, então essa afirmação deve ser pressionada até surgir factos, se não surgem vai para o lixo.
Existem milhares de divindades, nenhuma comprovada, muitas mais se podem conceber, a imaginação Humana é imensa.
Cumprimentos!
Bruno Miguel Resende
Caro Bizarro, esqueci-me de outra coisa, já que estamos em trocas de artigos, porque não trocar links?
http://liverdades.wordpress.com/
Cumprimentos!
Bruno Miguel Resende
Viva.
Catellius:
Não depende dos agnósticos deus provar que existe, e como tal é mais racional nem tentar provar que não existe (como tu bem dizes é impossivel) nem tentar provar que existe (como tu dizes bastaria que deus o provasse, e como isso não depende dos agnósticos seria infrutifero).
Pelo principio da navalha de Ockham faria mais sentido que existisse um deus, e até foi por isso que apareceu tal figura, porque a explicação mais simples para o que não se compreendia era a existencia de um ser divino. Contudo com o evoluir a humanidade também o conceito de deus evoluiu, não se restringindo apenas aos conceitos iniciais de "homens" todos poderosos.
Bruno:
A existencia ou não de um deus não é determinante para explodir autocarros, as pessoas que explodem autocarros faziam-no na mesma se não fosse por deus seria por outra coisa qualquer, eu não sou capaz de matar por um deus pois nem consigo conceber um deus que queira tal coisa. As afirmações todos podemos fazer, temos esta liberdade, agora os actos é que já não temos tanta liberdade, discutir a existencia de entidades divinas não resolve nem complica tais atitudes. Cada um pode acreditar no que quiser, tem é que respeitar a sociedade, não adianta que me digam que deus não existe, eu vou acreditar primeiro em mim (não me interessa a racionalidade disso eu digo que existe nem que seja apenas para mim :)) e não adianta dizer a um ateu que deus existe (ele sabe que não existe) esta discussão é de tal forma pessoal que nem devia existir, por isso considero o agnósticismo a mais racional de todas as posições em relação a este assunto. Eu nunca debato tal assunto por várias razões, a unica razão porque o fiz agora foi a convite de um amigo que merece o meu respeito e também um pouco para dizer que nem todos os religiosos são bombistas suicidas nem pessoas limitadas intelectualmente, apesar de alguns assim considerarem.
Se a fisica funcionasse como tu dizes no teu paragrafo final, não se utilizariam metade dos conceitos e leis. A fisica utiliza teoremas e regras até aparecer uma melhor ou mais correcta, é o que faz mais sentido. Se eu funcionar melhor com a existencia de um deus (que vou formulando pouco a pouco como será) qual o mal de eu permanecer com este conceito? Eu não estou aqui a julgar o bem e o mal, em termos de racionalidade (e por ser a posição que mais me respeita) considero o agnósticismo a melhor, mas talvez por isso os ateistas não o façam :)
Já podes encontrar no meu blogue a lista com todos os participantes no debate. É minha intenção, no final do mesmo, colocar um artigo em que analiso as várias opiniões dos participantes no debate.
Até breve e não te esqueças de ensaiar o "Jealous Guy"! :D
Excelente post. Espanta-me, no entanto, em relação às reacções (aqui e noutros fóruns) que se tenha instalado a ideia, entre ateus e crentes, que o agnosticismo implica de certa forma uma espécie de vazio moral ou de incapacidade de ter certezas em relação a tudo, como se os agnósticos vivessem num limbo onde tudo é admissível e nada é contestável ou racionalizável... como se os agnósticos tivessem desistido da inteligência ou a ética. Acho essa ideia extraordinária, para não dizer absurda. Além de simplista, porque o agnosticismo é uma realidaee complexa (aliás, o artigo da wikipedia levanta alguma luz em relação à sua natureza multifacetada). O meu agnosticismo, por exemplo, é ligeiramente diferente do seu, no sentido em que gosto de considerar que «deus, deuses ou entidades divinas» não é um problema insolúvel, mas sim um problema ainda insolúvel. Talvez um dia a ciência lá chegue, às explicações mais profundas da vida e do cosmos, quem sabe... discplinas como a mecânica quântica ou a astronomia têm dado passos muito interessantes nesse sentido, no sentido da "mítica" teoria unificada do universo e da criação.
seja como for, o seu blog já foi para os meus favoritos.
e ao aprofundar o seu blog, lá reparei que não é efectivamente agnóstico... peço desculpa pelo lapso. Isto não invalida, naturalmente, o interesse que me suscita o seu blog, se calhar pelo contrário...
JPC,
é com agrado que verifico que apreciou o conteúdo do post em questão, quanto ao lapso de agnóstico ou não, é legitimo, talvez eu até seja agnóstico mas não o queira admitir :)
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