Terça-feira, 15 de Maio de 2007

Livre arbítrio

Este pensamento foi reescrito porque tive mais tempo para pensar no assunto, e umas discussões com amigos ajudaram a melhorar a coisa.


Ultimamente com tanta conversa sobre religiosidade e ateísmo e tal, fiquei novamente a pensar no assunto, fui obrigado a pensar melhor na minha religião e no meu Deus (é sempre bom pensar nestas coisas). Por sorte estas ultimas actividades vieram convergir com um outro tema que me interessa muito, as ciências da computação e a sua capacidade de auxiliar na definição de conceitos que para mim são obscuros. Uma pergunta que foi feita e à qual eu não soube responder foi "Qual o teste que se faz para comprovar se algo ou alguém tem livre arbítrio?" Esta questão é complicada, não basta perguntar a alguém se ela tem livre arbítrio e aceitar a sua resposta. Para análise do livre arbítrio foi utilizada uma simulação por um professor meu com um robot que tem que salvar uma princesa e tem o dilema de ter que matar ou um ninja ou uma aranha para conseguir salvar a princesa. As acções do robot são condicionadas por funções de utilidade e por regras morais. No inicio o robot tem o dilema de salvar a princesa, e uma das regras morais que tem é que deve salvar a princesa, e para conseguir isso tem que matar ou uma aranha (gigante) ou um ninja, e a probabilidade de matar a aranha é mais baixa que a de matar o ninja, ele opta por matar o ninja e descobre que a princesa fica chateada porque ele matou um ser humano (a princesa defende a moral de gandhi). O robot volta atrás e na próxima vez como não pode matar o ninja, ataca a aranha e morre.

Eu estive a pensar no tema do livre arbítrio e depois do evento fiquei cada vez mais confuso, e agora acho que ninguém nem nada tem livre arbítrio, porque na altura comecei a pensar se alguém era realmente "livre de arbitrar" e até me perguntei será que (o meu conceito de) Deus tem livre arbítrio? Também não tem, não pode tomar atitudes que não sejam divinas senão não é Deus, e se Ele tem o conjunto de acções e decisões que pode tomar limitado como é que pode ter livre arbítrio, e mais grave ainda, como é que pode ser Deus?

O robot que foi usado na simulação tem livre arbítrio? Ele age tal e qual como qualquer humano que está sujeito a um código de moral, ou ético se preferirem. Ele escolhe tal como eu, mas terá ele livre arbítrio? As únicas condições para determinar as suas acções são as mesmas que as minhas, se ele tem livre arbítrio também eu terei. É certo que o robot não tem escolha quanto às regras de moral que recebe, mas também nisso é igual a mim. Matar alguém é imoral quer eu queria quer não, não sou eu que decido o que é imoral. Esta simulação do comportamento de um ser controlado por regras de moral diz muito sobre o livre arbítrio. Qual o teste que se pode fazer para determinar se o robot tem livre arbítrio? Um cão tem livre arbítrio quando decide mijar na roda traseira esquerda de um carro ou na roda dianteira direita? Ele não está sujeito a moral, mas por não estar sujeito a moral não tem livre arbítrio, ou por não ter consciência subjectiva ou as capacidades cognitivas que um humano tem não se considera que tem livre arbítrio porque ele não sabe que está a escolher? Livre arbítrio é só quando se sabe que se está a escolher e se têm todas as escolhas? Não pode ser porque ninguém têm todas as escolhas, reduzindo o caso a um mais drástico eu estou amarrado a uma cadeira e um tipo qualquer dotado de uma arma de laser diz-me "ou pestanejas 1500 vezes em 1 segundo ou eu mato-te". Eu apenas tenho duas escolhas para fazer, uma não consigo concretizar e a outra não quero. Este exemplo parece claro que não existe livre arbítrio aí, porque pode-se reduzir a um conjunto mais pequeno as hipóteses do que há para ser feito até restarem apenas duas ou uma. O que se passa comigo e acho que com todos, é que ninguém tem a totalidade das escolhas, e se ter livre arbítrio tem como condição necessária mas não suficiente ter todas as escolhas então não existe livre arbítrio. Mas se não for condição necessária ter todas as escolhas, a partir de quantas escolhas se considera que existe livre arbítrio e a partir de quantas considera-se que não existe?

Mas foi-me dito numa discussão à hora de almoço (acompanhada de um super bock que por incrível que pareça não servem lá Sagres) que o livre arbítrio era a capacidade que um ser humano tinha de me surpreender sem ser previsível ao contrário do robot, mas assumindo que o robot não é imprevisível (o que não é verdade pois pode sofrer um raio iónico que lhe muda um bit e comporta-se de forma homicida matando o ninja e depois a princesa) e que as pessoas não são imprevisíveis (o que também não é verdade pois eu consigo definir um conjunto de cenários possíveis e acertar na maior parte das vezes, o que as faz tão estatisticamente previsíveis quanto o robot) um cão também é imprevisível, e por isso tem livre arbítrio? Não me quer parecer...

Então neste momento estou com as seguintes condições para haver livre arbítrio

Totalidade das escolhas + Conhecimento das escolhas + Não restrição a regras (um computador então tem livre arbítrio, mas numa escala mais pequena que nós, porque nós apenas podemos fazer o que pode ser feito, tal como um computador)

Mas isto existe? Agora assumindo que isto tudo existe, eu não posso decidir sobre uma coisa que não sei que existe que nem sequer consigo pensar numa coisa que não exista para exemplificar pois se conseguisse seria paradoxal, se isto não for um requisito para haver livre arbítrio então novamente chego à conclusão que o robot da simulação tem livre arbítrio, pois ele não tem a totalidade das escolhas possíveis (tal como nós), ele tem conhecimento que tem que escolher (tal como nós) ele pode não estar sujeito a regras (por exemplo nos casos de queda de um relâmpago que lhe corte a corrente e ele não faça nada contrariamente ao esperado, ou até corrupção do seu código que lhe mude o resultado, tal como nós, pois quando alguém faz algo fora do normal não é normal te-lo feito, o mesmo se pode dizer de um computador) e ainda no robot ele só pode decidir sobre o que conhece tal como nós.

Se eu tenho livre arbítrio ele também tem, mas não sei porquê sinto que isso não é verdade, mas gostava de poder dizer porquê, não encontro nenhuma razão lógica para que eu tenha livre arbítrio e um robot ou um cão ou uma formiga não tenha. Caramba, devia haver um teste de livre arbítrio, mas será que existe quantidade de livre arbítrio? Eu se puder decidir sobre uns temas e não sobre outros, tenho livre arbítrio, não tenho, ou tenho assim assim? É que se puder decidir sobre alguma coisa não sou isento dele, mas se não puder decidir sobre outras também não o posso ter, mas será que posso ter um pouco? Isto é como uma televisão que funciona às vezes, não funciona, ela tem que funcionar é sempre, e se não funciona sempre é porque está avariada, que cena de bizarra...

5 comentários:

Helder Sanches disse...

Caro José,

O livre arbítrio é sempre parcial e relativo. No mínimo, estás sempre condicionado pelos valores morais que adquiriste ao longo da tua vida.

O mundo não é a preto e branco, por isso, as nossas decisões e opções também não o são.

À vontade, desejo ou necessidade de uma opção, pesas sempre as suas consequências. Isto, claro, implica que para alguém ser titular de um pleno livre arbítrio terá que ser louco ou irresponsável.

Um abraço e até mais logo. ;-)

Bizarro disse...

Mas o meu problema agora é saber concretamente o que é livre arbitrio para saber se um computador o tem e por consequencia se eu também o tenho. Se para ter livre arbitrio não é necessário que não se tenha opções limitadas, então um computador também tem livre arbitrio, até porque nem um louco nem um tem livre arbitrio total porque nem um nem outro podem fazer tudo. E porque é que um programa de computador como o exemplificado não tem livre arbitrio? Eu só vejo razões para ter :|

Ludwig Krippahl disse...

José,

O livre arbítrio é a sensação, talvez ilusória, de se estar a escolher o que se faz. O robot não tem livre arbítrio. Na verdade, esse robot nem existe a não ser na nossa imaginação, sugerido pelos padrões de intensidade luminosa dos pixels no ecrã.

E seja o que fôr que nós imaginemos o robot a fazer, o robot não tem sensação nenhuma.

Bizarro disse...

A ilusão de uma sensação de capacidade de escolha não equivale a escolha, e não vejo como pode ser suficiente para haver livre arbitrio, mas considero que é sim uma condição necessária para haver livre arbitrio, o que faz com o robot não tenha livre arbitrio, mas eu continuo a achar que não tenho livre arbitrio, ou que o tenho num conjunto muito pequeno de circunstancias. Mas o facto de eu considerar que não tenho não faz com que não o tenha mesmo, portanto a sensação de escolha ilusória ou não, não é suficiente. Ainda vou ter que investigar muito sobre o assunto, venham as férias :)

Fulano de Tal disse...

Acho q n podes comparar directamente o teu livre arbitrio com o livre arbitrio de um robot.

O livre arbitrio de um robo limita-se ao conjunto de regras que tu lhe impuseste na criação. Um robot n tem imaginação e portanto n tem a capacidade de numa dada situação chegar a uma conclusão que não esteja à partida prevista quando ele foi criado.

Num humano, o livre arbitrio apenas está limitado pelas regras da física. Tu podes fazer o q entenderes, mm que isso seja contra os codigos que te incutiram quando eras criança.
Um robot em principio n pode fazer esta redifinação das suas regras. Se puder então tem tanto livre arbitrio como tu.